Published by fernanda on 05 Aug 2008
Caral, a primeira cidade da América
No domingo, vi um documentário da BBC sobre Caral, a cidade mais antiga da América. Mas por que estou falando sobre ela? Porque, além de ser a mais antiga da América e de responder muitas perguntas sobre a origem das grandes cidades, ela põe por terra a teoria de que a guerra é natural para o ser humano.
Caral encontra-se no Vale do Supe, a 200 quilómetros a norte de Lima , no Peru. A civilização de Caral, a mais antiga do continente americano, foi contemporânea de outras como as da China , Egito, Índia e Mesopotânia.
Pirâmides em Caral
Essa região já foi explorada em diferentes épocas, mas ninguém havia encontrado Caral, somente cidades vizinhas. Mas em 1994, Ruth Shady, arqueóloga peruana, percorreu novamente o vale de Supe e identificou 18 lugares com as mesmas características arquitetönicas, entre os quais se encontravam os 4 conhecidos como Chupacigarro Grande, Chupacigarro Chico, Chupacigarro Centro e Chupacigarro Oeste. Para diferenciá-los, Shady denominou-os Caral, Chupacigarro, Miraya e Lurihuasi. Caral, Miraya e Lurihuasi são os nomes quechua dos povoados mais próximos aos lugares. Chupacigarro é o nome espanhol de um ave do lugar.
Shady escavou em Caral a partir de 1996 e apresentou os seus dados pela primeira vez em 1997, no livro “A Cidade Sagrada de Caral-Soube nos alvores da civilização no Peru”. Nesse livro sustentou abertamente a antiguidade pré-cerâmica da Cidade Sagrada de Caral, afirmação que consolidou de maneira irrefutável nos anos seguintes, através de escavações intensivas no lugar.
O Projecto Especial Arqueológico Caral-Soube está a cargo dos trabalhos na Cidade Sagrada de Caral, bem como dos assentamentos próximos de Áspero, Miraya e Lurihuasi. A arqueóloga Ruth Shady, viaja ao vale em forma permanente para continuar o trabalho das escavações e descobertas nesta parte de um país arqueologicamente rico e de diversas culturas milenares.
Mas por que essa busca por respostas?
Por mais de 100 mil anos não havia nem governantes, nem cidades. A humanidade constituía-se, ou de pequenas famílias nômades, ou de pequenos vilarejos. Havia pouco planejamento, pouca liderança e nenhum futuro, apenas sobrevivência, mas, então, algo aconteceu. Seis mil anos atrás, as pessoas começaram a sair dos vilarejos e construir grande cidades. Os arqueólogos chamaram isso de “cruzar a grande fronteira”. Isso aconteceu em seis lugares ao longo do globo – no Egito, Mesopotâmia, China e Índia – e no Novo Mundo, no Peru e América Central. Se não fossem esses pioneiros cruzar a “grande fronteira”, nosso mundo moderno não existiria, dizia o documentário.
Arqueólogos examinaram cada civilização procurando por pistas de porquê elas apareceram e em todas elas eles acharam coisas em comum, por exemplo matemática, sistema de calendários, escrita, cerâmica, metalurgia e, o principal, arquitetura monumental. Esta parece ser o principal sinal de que as pessoas reuniram-se sob governantes e com objetivos em comum.
No entanto, nada disso explica porque nossos ancestrais atravessaram essa barreria histórica. O que fez desisitirmos da vida simples pela cidade?
Existem, segundo o documentário da BBC, muitas teriorias: irrigação, aumentando a quantidade de alimentos; o comércio, que possibilitou a troca de produtos entre cidades, tornando-as especializadas; as guerras, que teriam agrupado os seres humanos através do medo.
O documentário segue a última, porque, segundo Jonathan Haas(Field Museum, Chicago), quanto mais as sociedades vão tornando-se complexas, mais parecem estar em guerras, representadas através da arte, da arquitetura, da escrita. Se a teoria estivesse certa, então a “cidade-mãe” deveria estar cheia de sinais de batalhas, porém os arqueólogos sempre enfrentam o mesmo obstáculo: civilizações constantemente constrõem sobre si mesmas e isso significa que os estágios iniciais teriam desaparecido. Por isso a importância da descoberta de Caral, uma cidade abandonada e intocada pelo tempo.
O documentário segue com a busca de indícios e de materias que pudessem provar a idade de Caral, assim como sinais de batalhas. Durante as escavações, foram encontrados sacolas “shicra”, claramente usadas para carregar pedras. Elas foram feitas com um tipo de palha e poderia ser testada a data através do teste de carbono. Depois de três meses veio o resultado: as sacolas eram de 2600 a.C, ou seja, Caral tem mais de 5000 anos. A cidade mais antiga da América. Quanto aos vestígios de batalha, dentro do perímetro da cidade, nada foi encontrado. Foi então que Jonathan Haas segue para os arredores da cidade pra procurar outros sinais de guerras, como muros e guaritas que retardasse a chegada do inimigo, mas também nada foi encontrado.
Foi impressionante ver o arqueólogo se dar conta de que sua teoria tinha caído por terra. Que uma civilização havia vivido ali por mais de 1000 anos sem nenhum sinal de guerras. Com essa informação, os pesquisadores foram atrás de outra explicação da origem de Caral. Um produto foi abundantemente encontrado: algodão. Havia plantações de algodão, porque, naquela época, o vale era cercado por rios e, com isso, eles abriam canais de irrigação, um grande avanço tecnológico para a época. Eles plantavam algodão para, além do uso local, para usar como moeda de troca para adquirir produtos. Como prova disso, os pesquisadores encontraram restos de vegetais e de frutas originários de outros lugares e o mais impressionante: vestígios de peixes e de moluscos característicos da costa peruana. Uma ligação comercial foi estabelecida entre os agricultores e os pescadores: os primeiros plantavam algodão para a tecelagem de redes de pesca e os pescadores forneciam os peixes e os moluscos secos em troca.
Com essas evidências, eles chegaram à conclusão de que a cidade de Caral originou-se baseada no comércio, um grande sistema auto-sustentável que possibilitou a chegada de produtos de lugares distantes, indo além dos vales de Caral. Isso é incrível, porque esse sistema construiu um mundo pacífico: comércio, governo central, classes sociais vivendo por mais de 1000 anos sem sinais de guerras nem de batalhas.
Essa conclusão ajuda a questionar o seguinte: como podemos ter 1000 anos sem guerras se a violência é inerente ao ser humano?
